terça-feira, 19 de março de 2013

O problema do preconceito

Boa noite.

Hoje, pouco antes de sair do emprego, me deparei com um rapaz. Nem-tão-jovem-assim, o homem devia ter uns 30 com aparência de 40. Ele implorava a todos na rua: "Isqueiro, isqueiro, isqueiro". Não conseguia sequer formar outra palavra: Tudo que ele pedia era um isqueiro. Estava sujo, vestido com um bom Blazer de corte italiano porém calças molhadas do joelho pra baixo, enlameado e com cheiro desagradável. Era evidente que não passava fome; Só não ligava para mais nada.

As pessoas abordadas por ele, enojadas, sequer respondiam. Desviavam de seus caminhos, olhavam com pura e completa aversão. Eu, a princípio, também. Depois pus-me a refletir sobre essa realidade dos moradores de rua que estão envolvidos com substâncias entorpecentes e demais coisas.

Todo mundo capaz de pensar sabe que o problema não são as pessoas com vícios químicos; Com efeito, elas são as maiores vítimas. Vítimas de suas sociedades mal-formadas, sua educação mal-feita; Seus hábitos exagerados. Vítimas de sua própria covardia e vítimas de haver um meio de escape. Eles o resultado dos milhões de problemas sociais do Brasil, e não os problemas em si. Isto é óbvio, e por tão óbvio, essa discriminação é tosca; Porém tão cotidiana que não a percebemos.

Quer ver? "Drogado", "marginal", "estagiário", "preto", "pobre", "puta", "viado". São palavras que evocam algo ruim; São usados como xingamento em boa parte das vezes. Você, como eu, tem uma sensação ruim ao "ouvir" boa parte dessas palavras. E isso faz parte do preconceito.

Mas espere aí; Diante do exposto, é "óbvio" que os ditos representantes de suas "funções sociais" não são o problema, mas mesmo assim são discriminados. Há aí uma discrepância convencional absurda, tal como parece: Nós não gostamos das vítimas. Geramos e admitimos o problema social, e filosofamos enquanto sentados no sofá sobre como resolvê-lo; Às vezes sentimos pena dos pobres animais sujeitos à uma condição, até que em muitos dos casos pensamos "eles escolheram essa situação", "bem, quem gosta de bandido leva-o para casa", "o racismo está tanto para os brancos quanto para os negros" e demais colocações estúpidas que servem apenas para tentar amenizar a culpa (que muitos de nós não sentem) de termos condicionado essas pessoas ao preconceito.

E um leitor um pouco cético (ah, amo esses) diria "Caio, as condições que você mencionou não são isonômicas. Ninguém escolhe nascer negro, mas escolhe-se entrar no mundo das substâncias químicas, tornando-se um viciado. Portanto, o racismo é preconceito e a 'drogadofobia' é desdém e/ou questão de segurança pública".

A resposta parece-me clara.  O que podemos definir como escolha? Determinadas condições que fazem alguém roubar, fumar crack ou cometer suicídio deixam essas ações 100% culpa do cognitivo do sujeito? Parece-me que não. As condições sociais, especialmente as implementadas desde a infância, mudam o caráter e o pensamento de alguém a ponto de marginalizá-lo de tal forma que a pessoa perde o senso-comum.

E é por isso que os Direitos das Minorias são tão importantes. É evidente que eu tenho medo de ser roubado, que já fui preconceituoso em vários níveis; Mas pensando no sujeito e não no problema, ele precisa de ajuda tanto quanto quem ele roubou.

Proibir a substância não ajuda no problema social; Tanto isso é verdade que ele existe, tão proeminente quanto possível. Fazer campanhas contra apenas denota ainda mais o "método de escape", motivo pelo qual muita gente mesmo entra nesse mundo. Prender o bandido (aquele que rouba por questões sociais) é necessário pelos méritos legais brasileiros, mas humilhá-lo, matá-lo, é demasia.

Isso tudo entra num círculo lógico sobre o por quê de eu ser contra Marco Feliciano, mas é outro mérito e prefiro comentá-lo apenas ad argumentandum.

Fiz todo esse texto e expus todo o meu ponto de vista para tentar fomentar uma discussão, de um ponto de vista um tanto quanto batido - o meu - "contra" alguém mais... Conservador.

Faço uma última menção: Aos discriminados, responder com a mesma intolerância faz perder a razão. Não adianta nada responder alguém que diz  "gays são pecadores e não deveriam viver" com "religiosos são alienados e cânceres da sociedade". Ambos os lados estão errados. 


Obrigado a paciência e, acreditem, eu aceito comentários!,

Até!

3 comentários:

White disse...

É difícil comentar no seu blog porque na maioria das vezes eu concordo com você. Esse é o caso.
Acredito que é um grande desafio vencer preconceitos impregnados desde pequeno em você, tanto explicitamente quanto implicitamente, mas nós tentamos né.

Istevo disse...

A discriminação existe mesmo. Infelizmente é uma questão de cultura. Tenho esperanças que, no futuro, possamos conviver mais harmoniosamente. Sobre a proibição ou não do comércio de "drogas", não vejo solução, é como aquele ditado "Se correr o bicho pega. Se ficar o bicho come!", com a proibição o tráfico gera rios de dinheiro, aumentam ou roubos, sequestros e tudo mais; Sem ela, a ignorância fará com que haja mais e mais consumidores.
Precisamos sim ser mais humanos, mas acho difícil, visto que àqueles para quem queremos dar atenção nem sempre compreendem e muitas vezes acabam até nos agredindo.

Caio Oleskovicz disse...

Com relação à discriminação em si, não há muita saída exceto a educação e a conscientização do povo.