segunda-feira, 22 de abril de 2013

A sutil diferença entre patriotismo e insanidade

Estou escrevendo esse texto porque amo meu país. 

Fui abordado diversas vezes por "não ser patriota". O argumento que a patota de "caçadores de não-patriotas" usava era bastante simples: "Se não tá gostando, vá embora". A todos, respondi ponderadamente que embora tivesse interesse em sair do país por algum tempo, o fato de eu ir embora não era o que definiria se eu iria concordar com as políticas e o sistema do Brasil, e se as pessoas que me fizeram esse tipo de abordagem concordam com tudo atualmente, lamento por elas. Vejam, não foi sequer uma resposta agressiva, como as minhas tendem a ser. 

Mas vou escrever um pouco mais; Contra-argumentar um pouco mais a fundo. 

Não, eu não estou gostando. Não estou gostando de ver um político conhecidamente corrupto na presidência do Senado. Não estou gostando de ver um racista homofóbico na presidência da Comissão dos Direitos Humanos. Não estou gostando da ignorância política que reina no nosso Estado-Nação, nos quatro cantos, sejam os sulistas separatistas (pelo amor de deus!) ou o pessoal que acredita que o Bolsa-Família é a reforma agrária tupiniquim. Também não estou gostando do sertanejo que o vizinho colocou no volume 30. 

O que se dá a entender é que para ser patriota precisa ser conivente com tudo isso (até com o sertanejo: é nossa "cultura"), e adorar futebol como se não houvesse amanhã. Digo-lhes, caros: Não. Ser conivente com tudo isso é ser um gigantesco idiota. É NECESSÁRIO conhecer dos problemas e, pelo menos, matutar sobre alguma forma de resolvê-los. Não precisa postar no facebook ou criar um blog sobre, só pensar neles, ter consciência. O patriota não é o imbecil que acha que seu país é perfeito e não deve mudar nada, mas sim a pessoa que tenta, por paixão, melhorar o lugar onde vive. Se você concorda com os problemas e, além de reclamar, sequer pensa neles, o não-patriota é você: Seu país sempre vai ser uma porcaria. Lide com isso. Podemos amar o Brasil, mas por enquanto ele está longe de ser um lugar ideal. 

A sugestão de ir embora me parece insana. Então, se eu não estiver satisfeito com meu fogão, a melhor solução de todas é simplesmente nunca mais usá-lo? Ora, vejam, eu não gosto do meu computador, mas ao invés de trocá-lo, vou parar de fazer uso do mesmo, para ver se magicamente ele se troca sozinho... É essa a ideia, compatriotas? Será que vocês entendem o quão lamentável soa?

Por outro lado, vejo também uma cambada de imbecis dizendo que "o problema do Brasil é o brasileiro", "o Brasil nunca vai mudar" e coisas do tipo... Até pode não mudar, mas o que muda você dizer isso? O ideal é óbvio: É uma espécie de ofensa à pátria, como se algo virtualmente inanimado pudesse se ofender. O que também não faz sentido nenhum: Parece que é aquela corrente pelo "politicamente incorreto" (cuja me dá uma dor no pâncreas toda vez que ouço; claramente a maioria não sabe o que é politicamente incorreto), pelo "humor (?) ácido", e coisas do tipo. Para esse povo, se você defende o Brasil das alegações desmedidas deles, você é alienado, comunista, blah blah blah toddynho blah. É um povo desprovido de conhecimento, tão severamente desprovido quanto os apresentados lá em cima, se não mais. Eles não querem lutar pelo país, querem simplesmente pagar de descolados - sim, eu sei que não faz sentido nenhum.

O que nos muda: Consciência política e conhecimento. Um dos problemas mais sérios do nosso país é o déficit educacional ("e aí", tenho vontade de dizer - mas não direi -, "acaba criando seres como esses aqui..."), e isso torna-se evidente pelo nível dos "intelectuais" de facebook. 

O Brasil é um país maravilhoso, senhores. Produz muita coisa de qualidade (mesmo que não sejam boas para você - e exceto, é claro, o tal do sertanejo, que aí é uma porcaria mesmo). Temos uma cultura rica e complexa, que vai muito além do chimarrão e do boi-bumbá. O brasileiro é dotado de um senso crítico muito maior do que big brother e novela, o problema é que a maioria não sabe disso e acaba não fazendo uso. Conhecendo o âmago do Brasil, é quase impossível não gostar da nossa terra papagalis. Quase impossível não querer lutar por ela, para tirar os cânceres de pele que corroem a melanina brasileira, e que estão aí - fechar os olhos para isso é loucura. E não precisa deixar o Brasil caso não o ame incondicionalmente: Mas por favor, ajude-o de alguma maneira. Nem que seja para seu próprio bem, amiguinho (obviedade que parece fugir do cognitivo das pessoas apresentadas pelo segundo caso). 

Boa tarde, brazucas. 

Um comentário:

Istevo disse...

A consciência individual é o primeiro passo, mas o que realmente faz efeito é a consciência coletiva, especialmente no caso do entendimento do patriotismo. Vide as grandes mudanças que ocorrem nas revoluções e grandes movimentos populares. Se considerarmos a evolução do Brasil pós república, podemos considerá-la razoável. A República do Brasil é jovem, 124 anos é pouco em comparação com a velha Europa ou com os 236 anos dos EUA. Temos ainda muito tempo para aprender e, é claro, que devemos fazer nossa parte.