quarta-feira, 5 de junho de 2013

O amor é baseado no egoísmo

Recentemente (ou nem tanto assim - já fazem quase seis meses, cara!) escrevi neste blog um "artigo" sobre ética. Em tal texto, afirmei que a quintessência (ou seja, o âmago, a essência mais pura) do ser humano é, necessariamente, egoísta. Tal frase, que pode causar certo espanto para as pessoas mais otimistas, não foi, para minha surpresa, refutada, de modo que podemos, então, para fins de escrita meramente lúdica, tomá-la como verdade. A partir disso, temos que o egoísmo é intrínseco e adjunto ao caráter e à "alma" em si do ser humano; nós somos, por excelência, uma raça muito baseada no ego. Ora, supondo que essa declaração esteja correta, nós temos que o egoísmo não é, necessariamente, algo ruim; mais profundamente, podemos também dizer que o altruísmo de algumas de nossas ações provém do egoísmo que está presente em nosso caráter. 

Uma pergunta simples que podemos fazer a nós mesmos é "por que". Por que estou fazendo tal coisa?, por exemplo, é uma pergunta bastante válida. Se nosso altruísmo é derivado do egoísmo, tudo o que fazemos pode ser explicado por três motivos:
a) Trás algum tipo de bem, para mim, a minha atitude, sendo este bem direto ou indireto;
b) Me convém ter tal atitude; 
c) A minha discordância gera indignação, portanto decidi ter tal atitude.
Ora, nota-se claramente que em todos os três casos agimos de maneira egoísta; não necessariamente por pensarmos apenas em nós mesmos, mas sim por, em algum momento, o fazermos. 

Diante disso, há um impasse bastante proeminente e de suma importância. Se o ser humano é, no mais profundo de seu ser, egoísta, como e por quê vivemos em sociedade? Afinal, por quê queremos ter um parceiro para a vida? 

A vida em sociedade é absolutamente necessária para o ser, por ele ser egoísta. E também por tal egoísmo necessitamos do contratualismo social. Ora, se é, de fato, altruísta, quando se deixa de fazer algo em prol de um determinado bem social; entretanto, nós o fazemos com propósitos egoístas, ainda tomando por verdade a oração supra. Pensamos no próximo, sim; porque o somos obrigados a fazê-lo, e por causa da nossa condição enquanto humanidade. Ninguém é uma ilha, para o bem deste alguém - se não o fosse, uma ilha alguém seria. 

Se nós cavarmos um pouco mais, chegaremos finalmente ao ponto da relação a dois. Ora, que há de ser tal relação, se não fomentada por um egoísmo de ambas as partes? O amor, positivamente classificado como delírio humano, é o mais egoísta dos sentimentos, justamente por ter uma faceta extremamente altruísta. Enquanto somos, por nós mesmos, forçados a abandonar o individualismo, desejamos mais do que tudo abandoná-lo, em troca de qualquer ganho pessoal que tal relação possa trazer. Basicamente, estou sugerindo que nos importamos com os outros - e mais do que isso, amamos!, amamos! - simplesmente porque é muito conveniente ao ser humano - ao sujeito - fazê-lo. 

De posse de, e ainda considerando verdadeira, esta ata, nós podemos ignorar todo sentimento que temos, e ainda assim não seremos indiferentes. A preocupação social, o idealismo, a paixão, qualquer que seja a luta, é gerada pela distopia pessoal em que vivemos, e tal sensação precisa - e irá - continuar vigente. Essa distopia é gerada pelas nossas expectativas, provenientes do ego, enquanto seres racionais, de como as pessoas ajam. Desiludidos a cada segundo, tendemos a nos decepcionar minimamente, e cada uma dessas decepções mínimas cria a preocupação. 

A qualidade de pensar presente em cada um dos seres humanos, qualidade essa que o caracteriza como tal, age nos mais minuciosos pedaços da nossa subconsciência. Não é exagero, portanto, dizer que baseamos o amor em nós mesmos. Buscamos apenas o que nos convém, o que nos trás bem, o que nos muda, melhora. E tal relação, necessariamente, é egoísta em sua quintessência, porque nós mesmos o somos. Abrimos mão de muito por amor, mas só porque isso vale a pena.

Ah, não, que não acabe o amor no mundo. Precisamos sim dele, assim como precisamos de guerras. Afinal de contas, os dois não são tão distantes assim. 

4 comentários:

Nickolas disse...

Gostei do seu texto. No final você falou sobre "precisarmos de guerra" e como eu gostei da sua interpretação do amor e gostaria de pedir, se possível, um texto sobre isso, para entender melhor esse ponto de vista.

Caio Oleskovicz disse...

Oi Nickolas, obrigado. Farei algo na linha, então, mais para frente. Sugiro que se inscreva no feed do blog, de modo que receberá a postagem por e-mail. Obrigado novamente!

att

Anônimo disse...

Caio, concordo com Vc. Só uma pequena nota:"raça", não existe. o correto seria; Espécie.

Caio Oleskovicz disse...

Oi Anônimo. Agradeço a intenção, mas quis dizer raça mesmo.

Att.,